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O blog está temporariamente parado, preciso de tempo!!
Até outro dia
Escrito por Paulo van às 23h54
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*Dedicado à única pessoa que conseguiu responder minhas perguntas
sem resposta...Amor, eu te amo...
O outro dia
Antigamente, bem antes de ser metade do que sou, ou pelo menos o que considero ser hoje, eu não precisava de tanta coisa para sentir que vivia bem. Não exigia muito dos outros e quase nada de mim mesmo. Eu era daqueles que acordava, abria as cortinas, escovava os dentes, tomava meu café e esperava o outro dia chegar. Com o tempo e o surgimento de novos ciclos de amizade e convivência fui percebendo algumas mudanças: tomei gosto pelos livros, passei a apreciar boa música, aprendi a reconhecer as constelações, mas tudo ainda era muito comum e esperar o outro dia chegar continuava a ser uma boa idéia.
Não demorou muito para os novos hábitos tornarem-se manias: escrever todos os dias; dormir tarde e acordar cedo (isso não é saudável); colecionar matérias e artigos de jornais e revistas, sem contar as crônicas e sentar à noite na frente do espelho a fim de conversar. Nesse período eu esqueci algumas vezes de esperar o outro dia chegar.
São semanas sem uma idéia, são meses sem riscar o diário. É engraçado perceber os hábitos das pessoas que costumam escrever. Tiramos um exemplo particular, um costume que tenho de escrever sempre, não importando o quê ou em que circunstâncias. Às vezes canso de ficar sentado destruindo o que tenho de visão na frente do computador, passei há mais de um ano a escrever em um objeto de uso simples e comum, o celular. Isso mesmo. Sempre que me vejo com uma idéia, ponho a registrá-la e salvá-la como mensagem de texto. Devo não ser o único, eu espero, ou estou mesmo precisando de ajuda, de um médico. Creio que não é para tanto. Sou jovem e ainda posso ser concertado, porém não quero.
Nesse intervalo de tempo eu não quis esperar o outro dia chegar.
Já amou? Falo com você mesmo, amou? Já amou alguma vez? Ou melhor, já amou ultimamente? E recentemente? Vou abranger menos, já amou há pouco tempo? Vou ser ainda mais objetivo, você pode me dizer que o amor não existe, por isso, já amou hoje? Está esperando o quê? Eu sei que não é fácil, principalmente se não há uma ação correspondida, no entanto só existe uma forma de amar? Você pode alegar que isso pode fazer você sofrer, mas se há sofrimento, então é sinal que faz parte da vida...
Eu não lembro de ter sentido isso, não lembro de ter vivido isso antes. Não da maneira mais pura e ao mesmo tempo mais intensa possível. Apesar de não ter uma memória atuante, apesar de não recordar facilmente de coisas simples, algo como um nome, um rosto, um endereço ou a localização exata de um canto da cidade qualquer, apesar de tudo eu sempre guardo uma lembrança sobre as sensações, os sentimentos. Mas isso é novo, muito novo para mim.
Eu posso até ser o único que consegue ver as flores nos cabelos Dela, mas ainda não consigo acreditar quando a vejo brilhar inteira.
Com tudo um tanto diferente, agora minhas cortinas estão sempre abertas, eu escovo os dentes antes e depois de tomar café da manhã e hoje sei conversar com cactos e bichos de pelúcia. O outro dia? Ah! O outro dia já chegou.
Escrito por Paulo van às 01h00
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Um tempo para mim por favor...não preciso de comentários agora.
Agradecido!!
Até daqui a pouco...
Escrito por Paulo van às 18h28
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*São crônicas que contam a história do Carteiro, essa é a primeira de muitas
A quase infância
Carteiro é um quarentão, homem gordo de baixa estatura sem compaixão por si próprio, utiliza a profissão para alimentar seu maior prazer: entrar na intimidade das pessoas. Abre sim todas as correspondências que lhe causam comichão de curiosidade. Ninguém sabe o que traz tanto conforto para ele saber sobre o que acontece na vida das pessoas cujas cartas ele entrega. O Carteiro não é tão diferente assim das demais pessoas que o cercam, ele apenas tem a vantagem de ter o destino de alguém nas mãos, ali em alguma daquelas cartas.
Criança ainda foi criado por Dona Marluci, empregada da casa já há muitos anos. O pai não suportava o fato de a esposa ter falecido no parto e passou a culpar o filho de ser o assassino da mãe. A empregada foi a responsável pela educação do menino. Batizou-o de Sebastião, o tabelião conhecia o pai do bebê e aconselhou Dona Marluci que acrescentasse José e assim permaneceu: José Sebastião Cavalcante Filho, o Tião, como chamava a empregada.
A primeira carta que o Carteiro violou foi por acaso, quando este tinha nove anos de idade. Dona Marluci que já contava com idade avançada pediu para Tião entregar um envelope na casa de Seu Assis, um velho que vez por outra visitava a empregada. O menino respeitava muito sua mãe de criação, por isso nunca deixou de fazer por ela alguns favores. Chegando a casa tocou a campainha e ninguém apareceu. Decidiu ir ao centro da cidade onde Seu Assis era dono de uma venda. Quando passou em frente à sorveteria encontrou Maurinho, seu melhor amigo. Tião era quase um ano mais novo que o amigo, por isso teve que aceitar quando Maurinho puxou a carta e correu. O Carteiro estava acostumado com essas brincadeiras.
- Devolve Maurinho, por favor – pediu Sebastião.
- O que é isso, cartinha de amor? – perguntou o amigo enquanto abria o envelope.
- Carta de quê?Devolve, devolve.Tia Marluci pediu para eu entregar, é para o Seu Assis.
Maurinho pôs-se a ler: “Meu amor, adorei o nosso primeiro...”.
Tião arrancou a carta das mãos do amigo e enfiou-a no bolso da calça. Os dois permaneceram em silêncio por um tempo. Sebastião não entendeu o que significava aquela carta, a própria Dona Marluci havia escrito, ele se viu no direito de ler o que nela continha.
“Meu amor, adorei o nosso primeiro encontro, em todas as visitas que me fez eu aguardei ansiosa o seu convite para sairmos. Agora sei que meu sentimento por você não vem apenas de minha parte. Adorei nosso passeio no parque, senti-me quarenta anos mais jovem. O desejo de viver mais cem anos floresceu graças a você, meu amor. É preciso que sejamos cautelosos discretos, não quero me precipitar com você. Não temos mais idade para aventuras, não posso simplesmente abandonar meu patrão e Bentinho, o menino que criei como o filho que nunca tive. Peço a você que tenha paciência e seja compreensivo, vamos nos encontrar quantas vezes mais você quiser. E se o amor exigir que eu largue tudo e vá viver ao seu lado, eu sou capaz e audaz de fazer. Um beijo da sua amada Marluci”.
Era a primeira vez que Sebastião desobedeceria a sua mãe de criação. Maurinho o acompanhou à venda de Seu Assis. Os dois passaram lentamente em frente à porta do estabelecimento. Podia-se ver o ódio nos olhos do Carteiro quando este viu o velho que seduzira a mulher que lhe criou, que lhe ensinou a andar de bicicleta, que lhe contou as histórias da Mula-sem-cabeça, do Saci Pererê, da Caipora e que lhe mostrou como fazer para a bola de meia não rasgar tão facilmente.
Chegou a casa e o pai não estava como sempre.Deu um beijo em Marluci e foi brincar com Maurinho no quintal.
- Entregou o envelope, Tião? – gritou a empregada de dentro da cozinha.
- Entreguei.
À noite o Carteiro leu mais uma vez a carta deitado em sua cama. Rasgou-a em muitos pedaços, jogou-a em uma lata de leite em pó vazia e ateou fogo nos papeizinhos.
Escrito por Paulo van às 02h48
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*O que nasce depois de uma palestra com o escrirtor Airton Monte? Reposta: uma crônica fraca demais!!!
Coisista
Eu sou um “coisista”. Passei, depois de tanta cobrança, a me considerar um mau cronista, um mau contista, um mau guitarrista, um mau baixista, um mau pianista, um mau violonista, um mau tecladista, um mau gaitista, um mau flautista, um mau desenhista, um mau artista, em geral sou mesmo um bom “coisista” – sujeitinho que tenta fazer de tudo. Muita gente está no meu pé discutindo comigo essa questão da humildade e da modéstia. Humildade é uma coisa que eu posso até ter, sabe, em uma zona morta do meu cérebro. Já modéstia não, sinto muito, não sou nada modesto, afinal nunca ganhei nada sendo assim e se perdi, foi algo que não fez diferença alguma em minha vida.
Acredito que não saberia viver em um lugar parado, um lugar rotineiro, monótono. Sou da cidade, sempre fui. Gosto de prédios, carros, motos, poluição sonora. Sou citadino ao extremo. Gosto de sair da aula por volta das nove e uns quebrados da noite apenas pra sentir o vazio das ruas depois de um dia inteiro de funcionamento das lojas, das barracas, dos frigoríficos, das bancas de revista, dos colégios. Gosto de ouvir o aglomerado de sons diferentes que se passa no meio do trânsito. Gosto de ir tomar café às pressas pra voltar à aula e, se a vontade for maior do que a força em minhas pernas, gosto de passar em um sebo de livros usados e sentir o cheiro da poeira e do ácaro daquelas folhas que estão ali há anos, mesmo que isso me custe uma semana ou duas com crise alérgica.
Eu me apaixono toda semana, mudo meu sobrenome todos os dias. Tenho um sério problema de memória. É muito comum, pelo menos no meu caso, acordar pela manhã e não saber qual é o dia da semana.
Desde quando passei a observar o que acontece ao meu redor, de perceber as situações inusitadas do cotidiano, meus sentidos parecem mais aguçados. Consigo descrever o que vejo com muito mais facilidade. Posso colocar no papel acontecimentos em minha vida e transformá-los em situações universais, problemas que afetam todo e qualquer tipo de pessoa. A cidade parecer ter notado o meu avanço. Arriscando um tom poético eu diria que a cidade parece corresponder ao que sinto. Nunca consegui explicar todas às vezes que me pego com baixo-astral, com baixa auto-estima, ou até mesmo infeliz e coincidentemente está chovendo. Ou quando recebo uma notícia boa, quando me alegro por um amigo que ligou pra dar notícia e lá está o tempo limpo, perfeito, o céu, as nuvens, tudo em harmonia com meu corpo e com minha mente.
Não são raras também as vezes que as estrelas sumiram à noite quando não consegui me concentrar para escrever ou compor. Ultimamente tenho me encontrado em paz de espírito (se é que isso existe), tenho aproveitado os momentos bons e os momentos certos, mesmo que durem pouco. E vocês notaram aquele dia que fez um calor danado? Só pode ser esse sol, cada vez mais forte.
Escrito por Paulo van às 16h43
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P.S.: Outro texto sem conteúdo, esse é antigo, muito antigo.
Minha primeira fase, iniciando na arte, pessimismo na época de adolescente sabe?
O café
sento-me em uma cadeira não muito confortável. Minhas pálpebras estão pesadas, deve ser o cansaço. Sempre concentro minha atenção em algo antes de começar a escrever, porém só consigo pensar no quanto o meu café está frio. Não sei mais se estou de olhos abertos ou fechados. Devo mesmo estar dormindo, pois já é tarde. Pode até ser que quando eu acorde tenha escrito apenas: “Sento-me em uma cadeira não muito confortável”.
Nunca imaginei que um dia chegaria a sonhar com palavras, ou com alguém lendo o que estou dizendo e pensando. Será que posso escolher – já que estou sonhando – quem pode, ou não me ler? Se eu fosse capaz, escolheria aquela garota do ônibus, assim ela não sentiria tanto medo de mim, pelo fato de estar lendo o que se passa em minha mente. Aproveitando a ocasião, eu poderia me levar a qualquer lugar em segundos e ter tudo o que desejasse, mas não sei se estou deveras sonhando. Ainda consigo sentir as dores na coluna. Preciso ligar para alguém a fim de saber se estou mesmo dormindo:
- Alô!
- Oi, quem tá falando?
- Deus.
- Putz! Eu morri?
- João de Deus da Silva Braga.
- Ah, é você, João?
- E quem mais seria?O que você faz acordado a essa hora da noite?
- Nada, chama o Tadeu.
- Meu irmão está em uma viagem.
- Então responde você, eu estou sonhando?
- O que? Fala sério! Vai arrumar o que fazer cara.
- Mas eu só estava...Alô, João?
Não adianta, sei que estou dormindo. Quando eu sentir o sol entrando pela janela, vou despertar e tudo voltará a ser como antes. Todos os problemas continuarão. Minha vida seguirá como sempre, as mesmas pessoas abusarão da minha paciência, carregarei o mesmo fardo de antes e assistirei através da televisão o mundo sendo destruído lentamente. Pensar no que me espera após acordar faz com que eu queira continuar dormindo, pelo menos assim, não faço parte desse mosaico de calamidades humanas. Já sei! Vou derramar o café e parar de bebê-lo. Talvez consiga com isso, permanecer mais um tempo aqui. Sonhando.
Escrito por Paulo van às 23h43
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*A pior fase da minha vida, somado as dúvidas, falta de criatividade, tendo que postar um conto sem conteúdo algum.
É o fim...
Na fábrica
Fez-se uma fila que se estendia de um lado a outro do corredor que dava acesso à sala do diretor da fábrica, Sr. Hernandes. Vinte e dois funcionários esperavam ansiosos alguma informação sobre o motivo dessa convocação inesperada. Dentro da diretoria estava Luciano, supervisor-geral; Valesca, funcionária da fábrica; José, o faxineiro e o próprio diretor.
A reunião já durava trinta minutos. Por todo o corredor os boatos eram unânimes: finalmente descobriram o romance entre Valesca e Luciano. Teriam encontrado os dois no galpão de limpeza, ou aos beijos em um dos elevadores. O amor proibido era talvez a base do relacionamento. Ele era um homem sério, de poucas palavras, tinha esposa e dois filhos. Ela morava sozinha, não o amava, era suficientemente inteligente para não o amar, queria deixar de ser uma simples empregada que tinge os tecidos fabricados para ser uma secretária, usar terninho e salto alto. Porém o romance crescia Pouco a pouco estavam mais próximos, entregando-se mais, como conseqüência, estavam menos cuidadosos em esconder o affair.
Ouvia-se o choro da moça dentro da diretoria, ela parecia desesperada. O supervisor saiu da sala juntamente com José. Os dois tinham o semblante fechado, preocupado. Luciano se dirigiu aos empregados e comunicou o falecimento do vice-diretor, Adalberto. A inquietação de todos fez o diretor aparecer trazendo Valesca que ainda tinha os olhos inchados e soluçava muito. Hernandes explicou aos funcionários que o vice-diretor fora assassinado essa tarde.
- A partir de agora, todos devem permanecer na fábrica. A polícia foi chamada e se prestará a ouvir os depoimentos de cada um.
Ninguém concordou com as ordens dadas, passava das oito horas da noite. O expediente terminava às sete e meia.
- É melhor não contrariar e acabar perdendo o emprego – disse Luciano. Os empregados foram aconselhados pelo supervisor e acabaram cedendo.
Os policiais chegaram em quinze minutos. Iniciou-se o longo interrogatório. As principais suspeitas caíram sobre Luciano, com a morte de Adalberto, ele seria o novo vice-diretor. Mas em seu depoimento o supervisor apontou um álibi, passara a tarde inteira com o diretor Hernandes conferindo o funcionamento da máquina de tear recém-adquirida.
O depoimento de Valesca foi o mais demorado. De acordo com o que disse a moça, ela havia encontrado Adalberto morto quando foi tingir os tecidos que estavam prontos. Entrou na sala de cozimento das tintas e viu o cadáver sobre a escrivaninha. Jazia com uma faca cravada no pescoço, o defunto segurava a arma que o matou como se tivesse tentando retirá-la com a energia que lhe restou após se defender do assassino.
Luciano ouvia tudo que a moça dizia. Mais tarde, quando os policiais terminarem o interrogatório, ele irá segurar os braços de Valesca com toda força. Perguntará se ela realmente não era culpada, se não fez aquilo para ele subir de cargo na fábrica, deixar de ser um supervisor. O amor proibido dos dois estava indo longe demais. Ela responderá que não, que jamais teria coragem de matar alguém. Luciano saberá que é mentira. Saberá também que ela será capaz de mentir muitas outras vezes.
Escrito por Paulo van às 00h47
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Bom de se jogar fora
Parte III
Estava se aproximando a semana das festas juninas.Os preparativos eram feitos com antecedência, por isso toda a Ladeira Velha já estava enfeitada: bandeirinhas, lâmpadas e balões de São João eram enfileirados nos varais por toda a famosa ladeira da cidade que terminava com a igreja toda iluminada.Numa das noites de comemorações um rosto novo apareceu na cidade.Cabelos pretos, pele branca feito porcelana, olhos assustados, sorriso tímido e um corpo que seduzia a quem era audaz de permanecer muito tempo olhando.
- Bonita demais, não deve ser daqui – comenta uma senhora sentada na calçada balançando-se na cadeira.
Carregava uma criança nos braços, um recém-nascido.Dr. Damasceno preparava-se para fechar o consultório quando a moça entrou repentinamente.Pediu que ele a levasse à polícia.O doutor não resistiu ao decote da jovem atraente, entraram no velho fusca amarelo carinhosamente chamado de Chicão e foram a caminho da delegacia.Ela queria registrar uma queixa contra dois moradores da cidade.
- Qual o seu nome? - perguntou o delegado Peçanha distraído com as longas pernas da moça.
- Marisa.
- E contra quem é a denúncia?
- Quero denunciar os padres Pedro e Luís.Onde eu morava, eles eram dois safados que seduziam as mulheres até levá-las para a cama.Eu sou uma delas.Acabei engravidando e os dois fugiram.Eu os procurei por várias cidades até descobrir que eles estão aqui – o escrivão registrava tudo sabendo que isso poderia mesmo ser verdade, ele nunca confiou nos padres.
- Quem é o pai da criança?Perguntou o doutor que ouvia tudo.
- Deixe que eu faça as perguntas, por favor – pediu o delegado. – Quem é o pai da criança?
- Eu não sei – respondeu Marisa.
A ordem dada aos policiais de plantão foi trazer os dois padres para a delegacia e indiciá-los por algum crime que Peçanha ainda não sabia dizer qual porque estava hipnotizado pelos seios quase à mostra da jovem.Durante o interrogatório, Pedro e Luís negaram tudo.Disseram que a mulher estava mentindo, nem a conheciam.Exigiram que os liberassem imediatamente.Nenhum homem da cidade suportava qualquer coisa que viesse dos padres, agora que o delegado teria a chance de desmascarar os dois, não os deixaria escapar.Uma pena saber que em Ladeira Velha o número de mulheres era quase o dobro do de homens.A população feminina se revoltou contra Peçanha e contra todos que eram a favor da prisão dos conjugues.
Não se sabe ao certo como eles conseguiram fugir.Muito menos como não foram vistos escapando.Nunca mais se teve notícias sobre os padres.Permaneceram somente uma semana na cadeia, até que em uma manhã de sábado, exatamente igual ao dia em que eles chegaram, o cabo Silveira abriu a delegacia e encontrou a única cela que deveria estar ocupada vazia.O delegado registrou um formulário que constava apenas uma fitinha vermelha de São Sebastião que ficara presa no cadeado enferrujado partido ao meio por alguma ferramenta que se compra por aí.
Escrito por Paulo van às 00h42
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Bom de se jogar fora
Parte II
Assim era com todas as alunas e também com as mulheres da cidade.O charme dos padres fazia com que as missas fossem cada vez mais freqüentadas.Eles pareciam estar acostumados com essa admiração que as mulheres cultivavam em segredo.A cidade mantinha uma opinião boa sobre os irmãos.Todos estavam satisfeitos com os dois.Todos menos os homens.
- Que pessoas maravilhosas são os novos padres, o senhor não concorda? – perguntou o dono do bar para o cliente – Bons pra se jogar fora não acha?
- Sim, concordo – respondeu o bêbado.
- Você soube o que eles fizeram para a viúva do Seu Cavalcante, a Dona Teresa?
- Aquela gostosona que não sai de casa desde que o marido morreu, há uns cinco anos?Não.
- Ela não saía de casa o senhor quis dizer, mas agora sai.Certa vez um dos padres descobriu que a viúva não pisava sequer na própria calçada.Os dois decidiram um dia visitá-la.Dona Teresa recebeu-os muito bem.Passaram a tarde toda lá.Os vizinhos a escutaram rir muito e bem alto.Depois desse dia a viúva vai se confessar todos os dias, assiste a todas as missas e duas vezes por semana recebe os padres em sua casa.Quando um não pode ir, o outro sempre vai.
Pedro e Luís foram ganhando a confiança das moradoras locais e a fama dos irmãos se espalhava para além da cidade.Com pouco menos de dois meses os municípios vizinhos já tomavam conhecimento de que em Ladeira Velha havia dois padres que lotavam a igreja de mulheres na hora da missa.
- Você ouviu alguém falar sobre o que os padres fizeram para a Rosinha? – perguntou Geni à amiga que lhe fazia uma visita.
- Não, o quê?
- A bichinha mora com a madrinha e passava o dia dentro do quarto desde que os pais morreram.Um dia os padres foram a casa dela e passaram a tarde trancados com a menina no quarto.Dois dias depois ela já estava se maquiando pra ir caminhar no passeio público com as amigas.Além de sempre fazer questão de assistir às missas.
Escrito por Paulo van às 10h31
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Bom de se jogar fora
Parte I
O único padre daquela pequena cidade chamava-se João Batista.Era um homem gordo, com várias doenças causadas pelo alcoolismo e pelo excesso de peso.Faleceu de uma parada cardíaca enquanto ouvia uma confissão.A cidade permaneceu nenhuma missa durante três semanas.
Aquela manhã de sábado era a mais corriqueira possível.A feira da Praça da Ladeira já estava bem movimentada.Dois homens vestidos com roupas que bem pareciam batinas andavam pela multidão, estavam perdidos e desorientados.Pararam em frente a uma das barracas de temperos, verduras e outras variedades.
- Bom dia – disse o mais alto dos dois homens.
- Bom dia!Vai uma verdura aí? – perguntou o feirante.
- Não, obrigado.Só queremos saber qual o nome dessa cidade.
- Então vai um queijinho aí? – insistiu.
- Não queremos comprar nada, apenas estamos perguntando qual o nome da cidade.
- Ladeira Velha, agora se os senhores não vão comprar nada, adeus, pois eu preciso trabalhar – disse o feirante sem a mesma paciência costumeira.
- E onde fica a igreja? – perguntou o homem sem esperar uma resposta do barraqueiro.
- Só digo se comprar alguma coisa.
- Está bem!Quanto custa aquela garrafa? – apontou para uma das bebidas que havia à mostra.
- Cinco reais.
- Eu quero uma.Então, onde fica a igreja?
- É só descer a ladeira.Não tem erro.
- Muito obrigado.
- Não foi nada.
O feirante segurou o mais baixo dos dois homens pelo braço e perguntou:
- Os senhores são padres?
Eles se entreolharam.
- Sim, nós somos.
Passadas duas semanas, os novos padres reabriram a igreja e passaram juntos a realizar as missas.Eram irmãos.Um chamava-se Pedro Alencar e o outro Luís Alencar.Apesar da semelhança, não eram gêmeos.O primeiro acabara de completar vinte e oito anos e Luís, o mais novo, contava com vinte e seis.Jovens e atraentes, provocavam suspiros nas alunas de catecismo.
- Quem você acha mais bonito, o padre Pedro, ou o padre Luís? – perguntou Vanessa à amiga Fernanda.
- Se você parasse de falar bobagens, prestaria mais atenção na aula.Logo agora que eles estão falando sobre Moisés e os dez mandamentos – Fernanda sentiu-se envergonhada com a pergunta.
- Sim, mas quem você acha mais bonito?
- Vanessa!Isso é pecado – irritou-se.
- Eu não perguntei com quem você perderia a virgindade!Só perguntei quem é o mais bonito.
A conversa no fundo da sala chamou a atenção de Pedro.Silêncio vocês duas aí atrás – disse o padre.
- Vanessa, não precisa falar tão alto, eles podem ouvir ou toda a classe pode ouvir – a garota estava com as faces coradas, já havia pensado no que a amiga dissera. Nunca esqueceu o dia que salvou o padre Luís de um atropelamento.Ele estava cruzando a rua totalmente desatento quando Dorival em sua bicicleta quase o atropela, só não graças a Fernanda que se arremessou em cima do conjugue levando-o ao chão antes do terrível impacto.Foi então que o padre presenteou a garota com uma fitinha vermelha de São Sebastião.
- Eu prefiro o padre Luís, pronto – respondeu finalmente.
- Então é com ele que você perderia a virgindade?
- Você quer tratar de calar essa... – as duas acabaram caindo no riso.
Escrito por Paulo van às 14h36
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As luzes do ônibus
Martin, o motorista do ônibus, estava nervoso.Nunca havia feito nada parecido, não tinha noção do cuidado e da atenção que isso exigia.Apenas concordou com a idéia porque precisava muito do dinheiro.Agora que a esposa esperava gêmeos a situação financeira necessitava de um auxílio, algo que garantisse o sustento dos filhos que já nasceriam em menos de um mês.
O plano era gastar a quantia que recebesse, somente depois de passadas dez semanas, para evitar as suspeitas sobre ele.O esquema era após o ônibus passar por baixo do segundo viaduto, o motorista ascenderia e apagaria as luzes do veículo quatro vezes. Esse seria o sinal.Logo então deveria alegar aos passageiros que havia um problema com os freios do ônibus.Com isso todos deveriam descer e trocar de veículo.
- Eu vou perder minha novela – disse a passageira mais velha.
- Calma senhora, tudo vai acabar bem – respondeu o motorista.
O mais complicado para Martin era saber que todos o conheciam.Todos sabiam um pouco da sua vida.A esposa grávida e a situação difícil que ele se encontrava. Os passageiros foram transferidos para o primeiro ônibus que passou, o segundo veículo envolvido naquele que seria o maior e melhor seqüestro já realizado por motoristas de ônibus.
Escrito por Paulo van às 00h07
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Crônica antiga
28/11/05 Os pássaros são para voar
Sinto um certo desconforto, um vazio.Eu era tão alegre; gostaria de recuperar muitas coisas.Só gostaria.Bons tempos aqueles em que passava o dia inteiro com os amigos.Sem preocupações, sem constrangimento, sem medo de colocar uma idéia nova em prática.Fala-se tão pouco nos corredores sobre as histórias que cercam aquele lugar, os alunos.
Bons tempos aqueles.Ninguém tinha compromisso com nada, eram as pessoas lá fora e a gente do lado de dentro, sem vínculo algum (ou em parte).Os pássaros são para voar, assim como o amor é para recordar e as coincidências, confundir com azar.Lá nasceram poemas, desenhos, músicas, todas as formas de arte.Eu conheci o mundo sem sair do banco do pátio, ouvi as melhores músicas com apenas o fone de ouvido esquerdo.Presenciei amores que duram até hoje e creio que não verei acabar.Mas vi casais perfeitos romperem.Atuei, desfilei, toquei, cantei, sorri, chorei, feri, fui ferido.Sangrei um sangue invisível.
Somente lá eu me encontrei.E a encontrei também.Sim, ela.Lá aprendi as maiores coisas da vida.Aprendi sobre a vida.Muitas pessoas foram embora, outras chegaram.Alguns continuam indo para rever os amigos.Lá eu aprendi a sonhar, e eles me deixaram sonhar.
Escrito por Paulo van às 14h33
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Café com asfalto
Amanheceu.Nós ouvimos o ronco de um motor se aproximando, seguido do som de pneus queimando o asfalto e da sirene.Desesperados, eu e Dimitri tratamos de fechar todas as cortinas da casa.O carro acabou desviando o rumo em direção à outra rua.Tínhamos certeza que eram eles e estavam perdidos nessa cidade.
- Raul, você acha que eles erraram o endereço? – perguntou-me Dimitri.
- Espero que sim – respondi.
Enquanto aguardávamos o telefonema com as instruções, o refém não poderia ser tocado.Apenas o amarramos embaixo da mesa da cozinha para que não fugisse.Ele merecia coisa pior.Judeu imundo, fez que eu arriscasse minha vida por mais de uma vez.Faz duas semanas que Dimitri me segura para eu não atirar na cabeça desse sujeitinho de merda.Não somos preconceituosos, queríamos apenas seu dinheiro.Ele era de uma família rica.Muito rica.
A campainha tocou.Dimitri foi quem abriu a porta.Eu havia me escondido na cozinha, caso fosse a polícia, fugiria pela porta dos fundos com o refém.Sorte que era apenas um enviado do Chefe com um telegrama.Quando ele se foi pedi que meu amigo lesse o que continha no envelope.
- Eu ainda não sei ler, Raul – disse-me envergonhado.
Lembrei que ele faltou a todas as aulas na escola da prisão.Era um cara legal, o primeiro amigo que fiz na cadeia.Só se preocupava com os músculos e com as drogas que tomava para aliviar as dores nas articulações causadas pelo excesso de musculação.Isso facilitava nosso entendimento: eu dizia o que fazer e ele obedecia.Os outros que conheci no tempo em que estive preso e que participaram da fuga, retomaram suas atividades no tráfico.O que eu jamais volto a fazer.
Peguei uma xícara de café e li o telegrama.A ordem era esperar o resgate ser pago, do contrário, se o dinheiro não fosse entregue, o telefone tocaria duas vezes e então deveríamos matar o refém.Enquanto explicava tudo para Dimitri, percebemos outro ronco de motor.Ficamos em silêncio.Outra vez a sirene.Eles voltaram e sabíamos que nos encontrariam.O refém iniciou suas orações.Eu queria matá-lo.
Vi entre as cortinas a viatura se aproximar em alta velocidade.Um policial inclinou-se para fora do carro e atirou.A bala atravessou o vidro da janela e atingiu meu amigo no peito que caiu violentamente sobre a estante da sala.Deitei-me no chão.Dimitri gritava de dor.Agora eu ouvia pelo menos três veículos se aproximando.
Procurei as chaves do meu carro.O telefone tocou.Uma...Duas vezes e em menos de dois minutos eu já estava diante do volante fugindo pelos fundos ainda com a xícara cheia de café na mão.Havia deixado para trás apenas Dimitri, meu melhor amigo e o Judeu, com um tiro na cabeça.
Escrito por Paulo van às 13h49
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Primeiro beijo
Eu estava confusa.A mão dele nunca me pareceu tão fria, nem mesmo daquela vez que dormimos na chuva esperando o veterinário abrir o consultório.O médico chegava às seis da manhã, daí a passarmos a noite protegendo o Plock, o cachorrinho dele.Tínhamos dez anos de idade na época.
O rosto dele nunca esteve tão próximo por tanto tempo, nem mesmo daquela vez que nos escondemos do Bartolomeu, um velho que odiava crianças.Nós atiramos um ovo na varanda de sua casa e fugimos para onde estava sendo construído o futuro ginásio da escola.Ficamos em um bueiro até ter certeza que o velho desistira de nos pegar.Tínhamos doze anos na época.
Nunca havia sentido a respiração dele tão ofegante, nem mesmo daquela vez que tivemos que correr dez quarteirões para alcançar o carro da mãe dele.Ela havia esquecido a bolsa, o relógio e os óculos.Tínhamos quinze anos na época.
O coração dele nunca bateu tão forte, nem mesmo daquela vez que fomos conferir o resultado das aprovações do vestibular.Quando deparamos com nossos nomes na lista de aprovados, eu em letras e ele em jornalismo, pensei que carregaria mais uma vez ele desmaiado para a enfermaria do colégio.Tínhamos dezoito anos na época.
Ele nunca me olhou dessa forma, nem mesmo daquela vez no campus da universidade, quando colocou os meus livros no chão e deu-me o que viria a ser o nosso primeiro beijo.
Agora só me resta rezar para a ambulância chegar logo, enquanto vejo o sangue dele escorrer pelas ferragens destruídas do meu carro.
Escrito por Paulo van às 23h32
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Álcool
Bebe, e não é pouco não.Passa em média apenas dez horas por dia em estado sóbrio, sendo oito horas dormindo e cerca de duas horas entre o banho e o café da manhã.Deixa sempre uma garrafa próxima ao telefone, muitas vezes ao lado deste.
Mora sozinho, mas nem sempre foi assim.Já foi casado e certa vez quase foi preso por bater na esposa.Ela retirou a queixa na delegacia antes dele ser indiciado e os dois se divorciaram.Não tem emprego?Sim.Hoje trabalha em uma loja de sapatos, porém já foi dono de uma empresa de consultorias, já teve até clientes russos e alguns alemães.O alcoolismo fez ele perder o controle sobre os negócios, seus sócios então conseguiram, no tribunal, invalidar a sua parte na sociedade e ele perdeu tudo.
Acorda cedo não porque gosta, mas para ter tempo de entrar em todos os bares no caminho para o trabalho.Sua função na loja é organizar todo o estoque de sapatos do depósito por marca, tamanho, cor, mais caros e mais baratos.Desempenha um bom serviço, sobrando tempo para desembrulhar a sacola escondida na bolsa contendo uma garrafa.
Dentro do depósito ele tinha acesso a todas as informações omitidas pelo dono da loja como: sonegação de impostos, mercadorias falsificadas e preços alterados.Sempre teve vontade de ganhar dinheiro com uma chantagem, ameaçar ligar para a Fiscalização Pública, no entanto sabe que não tem coragem de enfrentar o patrão.
Seu maior medo era ser descoberto se embriagando dentro do depósito.E foi.Demitiram-no.Nesse dia não voltou para casa.Chegou somente pela manhã, cambaleando, quebrando alguns objetos da sala como o cinzeiro favorito e um porta-retratos.Largou-se no sofá e deixou o chapéu cair ao chão.Viu ali uma garrafa em cima da mesinha do telefone.Alcançou-a, tomou três grandes goles daquele líquido e discou um número que havia decorado.
- Alô! – a voz saiu com dificuldade. – É da Fiscalização Pública?
Escrito por Paulo van às 23h58
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